domingo, 11 de setembro de 2011

Do Harém ao harém

 

por maneco nascimento

harém . [Do fr. harém ár. *arCm , 'aquilo que é proibido, ou que se deve manter fora de alcance, defendido'; 'objeto ou pessoa sagrada'; 'santuário, lugar inviolável'; 'a parte da casa reservada à mulher (e à qual um estranho não pode ter acesso)'; 'a(s) esposa(s)'.] S. m. 1. Parte do palácio do sultão muçulmano onde se acham encerradas as odaliscas; serralho. 2. O conjunto das odaliscas de um harém. 3. Parte da casa muçulmana destinada à habitação das mulheres. 4. Fig. V. prostíbulo. [Cf. arem, do v. arar.] (fonte: www.harem.blogspot.com.br/)

Surgido no ano de 1985, o Harém Pictures de Teatro/Grupo Harém de Teatro tinha em suas prerrogativas primeiras a abertura de canais e territórios para a cena que se propunha impor o homem brasileiro no centro da cena. Discurso dono das falas de qualquer projeto cênico nacional moderno, ele veio com a força do jovem Grupo piauiense para novas linguagens e signos transgressores.

Assim o Grupo Harém de Teatro desenhou a própria forma e determinou seu espaço de atuação e mercado de encenação, somando-se ao histórico do teatro local já existente e perseverante. Dos primeiros passos do Grupo, a montagemO trágico destino de duas Raimundas ou Os dois amores de Lampião antes de Maria Bonita e só agora revelados”, direção e dramaturgia de cena de Arimatan Martins, foi sem dúvida o grande começo de tudo.

Texto de Chico Pereira da Silva, uma das peças que compõe a Tetralogia "Raimunda Raimunda", que o autor piauiense, de Campo Maior, dedicou à amiga Fernanda Montenegro, no começo da década de 1970, já trazia uma renovada leitura para teatro de autor genuinamente afeito da identidade brasileira a nordestes descobertos no descentrado universo da fala nacional.
 (Cena dos caminhoneiros: Francisco Pelé, Airton Martins e Marcel Julian/"Raimunda Pinto, sim senhor!", de Chico Pereira da Silva)

Das outras peças da tetralogia, “Raimunda Jovita na roleta da vida ou Quis o destino: de Pucella e Ninon”, montagem do Grutepe, com direção e dramaturgia de cena de José da Providência; “Raimunda Pinto, sim senhor!”, direção e dramaturgia de cena de A. Martins, o maior sucesso de público, crítica e bilheteria do Harém, ficou no ar por 19 anos até fechar carreira em 2011 e “Ramanda e Rudá”, montagem de São Luis, do Maranhão, com direção do argentino Marcelo Flexa.
Das boas relações sociais, criativas e interacionais de estética e plástica cênicas o Harém de Teatro solidificou e parcerizou respostas e encontros não só com os diretores e atores que passaram pela carpintaria de Chico Pereira da Silva, como reiterou laços de amizades cênicas com o Brasil que parecia desdenhar a força do teatro amador do Piauí.

Na esteira do Grutepe, agremiação bem reconhecida fora das fronteiras do estado, o Harém foi furacão de defesa e renovação do olhar para a nossa cena e garimpou os + diversos prêmios comOs dois amores de Lampião...”, “Raimunda Pinto...”, “O Vaso suspirado”, textos de Chico Pereira eO Auto do Lampião no Além”, d’outro piauiense mágico à dramaturgia ao palco, Gomes Gampos.

Ampliando sua teia de autores nacionais montou, de Plínio Marcos, “O assassinato do Anão do caralho grande”, direção e dramaturgia de cena de Arimatan Martins; “Dois perdidos numa noite suja”, em parceria com o Extremo de Teatro, de Almada/Portugal e, repetindo a dobradinha de nações, “Quando as máquinas param”. As duas últimas montagens, direção e dramaturgia de cena de Fernando Jorge, diretor de teatro do Extremo.
 (elenco de "O Assassinato do anão do caralho grande", de Plínio Marcos)

 Nos 25 anos completos, O Harém devia-se um autor + ampliado das nossas fronteiras, mas não fora da identidade ibérica. Da nova investida, “A Casa de Bernarda Alba”, do granadino Garcia Lorca, um dos + montados e respeitados na cena mundial, também recebeu olhar de Arimatan Martins e grafou latitudes e longitudes na geografia dramtúrgica a nordestes e Espanha.
(Bernardas do Harém: "A Casa de Bernarda Alba", de Garcia Lorca)

 Do começo de tudo em que o trocadilho do nome de identidade do Grupo tinha relação direta com o enredo deO trágico destino de duas Raimundas ou Os dois amores de Lampião antes de Maria Bonita e só agora revelados”,em que o Rei do Cangaço mantinha um harém, para agrado e confronto da sultana Raimunda Borborema, a agremiação Harém ficou tendo como pedra base um elenco masculino, fazendo caminho inverso do harém de cultura muçulmana.

Esse harém às avessas rendeu “horrores” de sucesso. Com montagens em que homens fizeram as vezes de personagens femininas e sempre muito bem realizadas. Como diria o diretor Arimatan, em defesa de sua dramaturgia, era preciso que atores pudessem vivenciar, na cena, a alma e sentimentos femininos para compreender a força da mulher brasileira traduzida pelos autores.
(Cena da troca de maridos/"Raimunda Pinto sim senhor!", de Francisco Pereira da Silva)

Um Harém para todo o permitido, dentro do alcance e do defendido, estudo do objeto à ciência do sacro e profano, é santuário violável ao diverso das estéticas, lugar e casa reservados ao homem (genérico) e às falas do espírito universal. Nesse local causaria estranheza o não acesso a casamentos de linguagens e línguas próprias da cena.

O Harém de Teatro, nos seus 26 anos de história planejada, é espaço de homens e mulheres livres e receptáculo de arte e cultura do diverso do espírito humano.
Fonte: manekonascimento.blogspot.com

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Refletindo Sobre o Encontro de Diretores Lusófonos


*Jaqueline Carvalho Bezerra
Artista Visual-UFPI


Arimatan Martins, Elliot Alex, Fernando e Simão, Fernando Jorge, Hélder Costa, Idalétson Delgado, João Andirá, Marcelo Flecha e Silvio Zilber formaram o conjunto de identidades de língua oficial português, no encontro dos diretores do 4º Festival de Teatro Lusofóno - FESTLUSO em Teresina no Piauí.   
O marcante encontro entre esses grandes dirigentes das encenações dramatizadas ao longo do FESTLUSO traçaram metas a ser cumprida durante os próximos seis anos de festival no Piauí, a intenção é concretizar uma por ano até o 10º Festival que passa por um processo de renovação a cada ano. O Festival de cunho internacional põe o estado do Piauí como um novo circuito cultural a nível nacional, e está sendo repensado em virtude das atuais políticas públicas culturais do País. “É necessário, pois a cada dois anos temos eleições o que inviabiliza a vinda de recursos, por isso estamos repensando a forma de se realizar o Festival nos próximos anos. Enquanto estamos realizando o Festival vários editais estão fechando e não podemos participar porque ainda vamos prestar conta do que está em percurso.” afirma Airton Santos um dos diretores administrativos e ator do Grupo de Teatro Harém idealizador do FESTLUSO.
O encontro inusitado dos diretores de países como Angola, Cabo Verde, Moçambique, Portugal e Brasil com representantes dos Estados do Piauí, Maranhão, Bahia e Paraná reforçou a singularidade do Encontro, uma vez observado que não há outro realizado no Brasil com tais características. “Um evento acolhedor, caseiro. Caseiro porque podemos interagir com outros diretores sem a pressão de estar em competição, aqui podemos sentar e discutir estratégias, interagir nas mais variadas formas da produção teatral e das políticas culturais, as vezes vamos a eventos e mal encontramos a equipe técnica.” afirma risonho Silvio Zilber fundador da escola de teatro Macunaíma e um dos grandes nomes do teatro nacional que lembrou completar 50 anos no  fazer teatral.
O Lusófono que este ano fez homenagem a Teresina, com o tema “Teresina é um espetáculo” mostrou a perfeita dança entre as inúmeras identidades que o ventre teresinense gera e recebe. Na reunião representantes de Portugal, país colonizador da maior parte dos países presentes, numa conversa saudável e produtiva, deixou claro que aqueles embora façam parte de um país colonizador sempre estiveram no lado que permanecem até hoje, o lado democrático da cultura. É importante salutar uma vez que no encontro havia países africanos que conseguiram sua independência através de luta armada há no mínimo 35 anos e outros que ainda sofrem com a guerra civil e destes todos, Angola vem surpreendendo, pois já há quem arrisque dizer que será a próxima potência.  
Durante o festival propositalmente especulei: “Este é um evento que foge do eixo cultural nacional...”, era omisamente ao Rio de Janeiro e São Paulo a referencia, “...como você avalia?”, para surpresa o diretor Elliot Alex se debruçou sobre a questão quando veemente em uma segunda oportunidade respondeu que naquele momento não estaria acontecendo nenhum festival de lusofonia no mundo, porque todos estavam ali, por isso o Piauí passava a ser o centro das atenções e por isso não existia essa de fora do eixo, mas sim dentro do eixo, porque naquele momento a capital internacional da Lusofonia era Teresina, encerrou Elliot. Esse momento ficou claro porque “Teresina é um espetáculo”, mas que no seu todo ainda precisa ser reconhecida e valorizada pelos próprios piauienses.              
Diante de tantos assuntos e trocas, no teatro algo principal não pode faltar, o público. Esse foi um dos alvos de discussão e certamente o mais preocupante, enquanto o jovem e bem articulado diretor Idalétson Delgado comentava sua conquistada trajetória até a chegada ao Festival, teceu um comentário distinto: “fazemos um teatro social, acessível”, essa frase foi o fio inicial para o diretor Marcelo Flecha incitar que no Brasil em qualquer situação o teatro deve ser social e acessível, o problema é que o teatro está inacessível, porque boa parte da população “não possui condições” para ir ao teatro, menos de 10% da sociedade brasileira sendo muito generoso completa Marcelo. Embora o Festival de Teatro Lusófono ofereça entrada franca, a muito venho na qualidade de artista e produtora contemplando e incitando a idéia de formação de público, pensando também na Bienal que o Piauí aos poucos vem construindo e que sediará nos próximos biênios, para não continuar uma arte feita por artistas para artistas contemplar. Claro! Levando ao pé da letra é isso que acontece. Por isso não adianta ser gratuito se não há essa formação de público, sem ela sempre haverá uma restrição natural de público.  
É valido lembrar que esse processo de formação de público depende de uma gestão política pública cultural, em parceria com órgãos educacionais e tantos outros que trabalhem em prol do desenvolvimento da capacidade humana. Cultura é o marco identificador de uma sociedade capaz de movimentar a economia, mas depende de um plano de ação. Nosso Estado possui potencial para atrair recursos econômicos pelo viés do turismo e da cultura, começando pelo festival de teatro internacional que é sem tradução, mas, o governo na sua forma mais completa e efetiva deve elaborar planos para atrair turistas ao nosso Estado, e dentro deste fomentar uma estrutura solida para o turismo, até porque 2014 está chegando. 
E enquanto fica os sabores degustados e muitos ainda por analisar do FestLuso 2011, logo surge os primeiros questionamentos para 2012, resultado do encerramento do 4º festival após o comentário de Francisco Pellé que anunciou pela primeira vez na história do Festival de Teatro Lusófono não lançar a data para a 5ª edição, em outro momento Pellé expôs que 2012 será o  ano do Brasil em Portugal e Portugal no Brasil e que o Festival precisa ser repensado para que haja um fluxo, uma vez que o número de companhias de alguns países que vem participando do evento vai esgotando enquanto outros nunca estiveram aqui como as de Guiné-Bissau. Assim “Teresina é um espetáculo” concretizou nesta 4ª edição de Lusofonia um evento cultural no Estado do Piauí que merece diferenciada atenção.


Teresina-Piauí-Brasil
Agosto 2011