sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Crítica - "Olímias"


O ator e gestor cultural Maneco Nascimento publicou em seu blog, no Portal Vooz, uma crítica ao espetáculo que abriu o FestLuso na última segunda-feira. Confira:


“Olimias”, adaptado por Hilário Belson, do livro homônimo de Adriano Botelho de Vasconcelos, inicia-se quase como ritos tribais à força da própria cultura que alimenta a cena produzida. Corpos expressivos, dançantes em movimentos singulares e concentrados na energia de tônus medidos, vão desenhando a alegria, angústia e tragédia de inconsciente anunciada.

Um triângulo amoroso vai se delineando sob protestos de um quarto elemento, o velho feiticeiro, o bêbado e louco aos olhos da juventude questionada. Texto de variante entre poético-filosófico, criativo, político e de memória afetiva localizada. Dois jovens rapazes disputam a paixão/amor de uma mulher.


Do release se extrai que “Olimias” é a história de três filhos gerados por uma trama de amor e ódio, criada por pai infiel, fazendo cair uma maldição sobre os rebentos Nguxi, Ndundi e Olimias.

A personagem do pai, Tibas, anuncia “da catedral sairá uma filosofia descalça, que vai escolher-vos com seus melhores discípulos porque levam entre mãos uma guerra que lhe podem emprestar”.

Quando a disputa vira guerra, o pai interfere e confessa a paternidade, gerando a “morte” da vida já confusa das personagens. Os símbolos cenográficos já antecipam local em que se desenrola a tragédia, um cemitério ora à margem de suas existências, ora lugar comum ou cova aberta a receber o resultado da constatação da maldição familiar.

A Cia. de Teatro Dadaísta reúne elenco de emoções em contenção, especialmente na manifestação masculina. Simão Paulino (Nguxi) e Aurio António Pereira Quicunga (Ndundi) têm uma desenvoltura corporal de movimentos medidos. Cilana de Fátima da Silva Manjenje (Olimias) também desenvolve uma performance eficaz, de quase dança nova com pés na tradição cultural felicitada.

Hilário Belson (Tibas – o velho) varia comodamente entre a estranheza de maquiagem e corporificação da personagem e a graciosidade festiva da memória da dança d’África.

Teatro de 90 minutos, com Direção Geral de Fernando de Andrade José e Encenação de Hilário Belson, apresenta um empertigado exercício centrado muito no texto e com um cuidado nas falas e inflexões emocionais distribuídas às personagens desdobradas na boca e corpo dos intérpretes.

Cenografia, Iluminotécnica, Sonoplastia e Figurinos assinados por Sidónio António estão dentro do enredo pensado. A iluminação tem característica, por vezes, fortuita e nervosa em delineio, talvez, do perfil psicológico das personagens. 

Até pelo menos os primeiros 60 minutos o espetáculo tem vida equilibrada, depois vai desabando em dramalhão e torna-se de um denso desnecessário, quase um excesso de gordura saturada.

Depois do excesso de drama, como em cultura ancestral volta-se à festa derramada de alegria e oralidades corporais leves e de característico ascendente e luminar. “Olimias” e a Cia. de Teatro Dadaista, cumprem a cena e vendem seu peixe com dignidade de quem conhece o ato de identidade artística e cultural. 
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